Bia Pattoli

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Ghetto Wedenesday! | Funk Tru

Talvez você conheça pessoas que digam: “Eu já fui num baile funk. lá no Castelo das Pedras.” E talvez você conheça pessoas que digam: “Eu já fui num baile funk, lá no Complexo do Alemão, antes das UPPs, em 2004, com o DJ Marlboro. Não to desmerecendo ninguém não, mas que a experiência de ter ido no Complexo do Alemão foi muito mais emocionante e do caralho, isso foi. Um dos brothers que foi junto nessa empreitada, achou um texto publicado no UOL, logo após essa “excursão”. Copiei e publiquei aqui, pega uma breja, água, café, wtv e leia, vale a pena :)

Funk Pancadão no charme elegante do Spring Love, meu cumpadi!

Luiz:

Após uma conversa pelo MSN com o DJ Marlboro, estou encarregado de ajudar a organizar a Ponte do Funk. Misto de um desejo antigo (ir num baile carioca) e aventura coletiva, saio em busca de participantes para a odisséia. Na lista de confirmados, diversas pessoas que não se conheciam, porém um sentimento comum: curtir uma baita balada forte, ou night, como dizem no Rio. Abaixo, segue o relato de dois amigos que acreditaram nessa idéia juntamente com mais 40 pessoas. Valeu Marlboro pela oportunidade, valeu galera por ter acreditado nessa idéia.

Leandro:

Feriadão chegando e nada pra fazer. Nada na agenda, nada na cabeça, nada de telefonemas, nada de mulheres, amigos, novamente ficaria na companhia do PlayStation. Aí, meu camarada Edsinho liga e pergunta “Tá a fim de ir prum baile FUNK no Rio de Janeiro?”. Nem fiz cara de espanto, apenas perguntei: “Quanto morre?”. A minha intenção era de saber o preço, porque… balada FUNK, no Rio de Janeiro, deve morrer uma pá. Então vem a resposta: “É de grátis!!” E eu: “Demorô!”.

Edsinho:

Diferente do Leandro eu já tinha tudo programado pro feriado, alias antes do feriado eu já estava na pilha pra ver uma perfomance do DJ Marlboro aqui em Sampa, quando pintou o convite de outro brother o Luiz Pattoli, informando que haveria a Ponte do Funk. Em poucos minutos, eu arrumei mulheres, amigos e muita coragem pra cair no Rio de Janeiro em pleno feriadão.

Leandro: 

O cara me avisou:”Segunda-feira, 4h da tarde, em frente ao Centro Cultural SP”. Então, lá estava eu. Uma galera que não fazia a menor idéia de quem era e um busão. Em seguida chega o Luiz com uma tatuagem fenomenal no melhor estilo Alexandre Frota e uma equipe de filmagem da TV Record. Enquanto eu fazia terrorismo pro outro camarada, o Edsinho, dizendo que era a equipe do Cidade Alerta, o Luiz chega e diz: “Aí, sabiam que os câmeras tem colete à prova de balas?”. Pronto… acabou a graça na hora. O pior foi o repórter da Record perguntando sem parar: “vamos na favela, né?”, “A gente vai passar por bailes e um deles é na favela, né?”, “Vai ter favela, né?”. Putz, se a gente não fosse na tal favela o cara ia ter um treco. Acho que o próprio Tom Calvalcante chegou pra ele e disse: “Ou você volta com imagens da favela… ou eu te chuto o traseiro”.

Edsinho:

Bom, como todo jornalista antes de cobrir um evento de risco, é bom tomar umas precauções de segurança. Pra me precaver comprei uma caixa de brejas pensando que poderiam ser a últimas latinhas consumidas, antes de entrar no noticiário policial. Mas antes encontrei uma equipe que iria cobrir o baile funk pelo site AOL e mais um equipe da Record bem descrita pelo Leandro acima. Cumprimentei o Luiz e disse vamos nessa, seja o que Deus quiser.

Leandro:

Aí entramos no busunfa. A recomendação do motorista era uma só: “Tentem segurar e não fazer coco, porque não vai descer pelo buraco. Os prejudicados serão vocês”. Tudo bem. Pelo que eu me lembre, até às 10 horas da noite ninguém fez nenhum download. Depois… Bom… O Busão tinha esse probleminha e também não era muito espaçoso. Nem o filme “Tuff Turf, o rebelde” colocado pelo Luiz foi suficiente pra segurar a galera sentada. Assim, não demorou nada pro pessoal começar a se agitar, levantando-se pra cantar, dançar, fazer imitações e conhecer-se. A catuaba, cervejas e pinga amarela comprada na única parada em Aparecida (que não foi pra rezar e sim pra fazer aquele cocozinho que não podia fazer no busão) também ajudaram a desinibir. A idéia era que passássemos por três bailes numa noite só: um na perifa, um de classe média e um dos boys. E veio a primeira notícia que o tal DJ Marlboro, o anfitrião passou para o Luiz através de um telefone: “Luiz, o morro onde a gente ia no primeiro pancadão entrou em guerra. Mas não se preocupa não. A gente não vai cancelar, não. Vamos num no Complexo do Alemão”. Entrei no ônibus e passei o recado. Enquanto a meninada rachava o bico achando que eu mentia, os caras da Record preparavam os coletes.

Edsinho:

Como o próprio Leandro relatou acima o único problema do busão era o banheiro. A galera do busão, especialmente a galera do fundo, começou a ditar o que viria pela frente cantando funks de Mc Serginho, Claudinho e Buchecha, além dos MC’s Beguerês que o pessoal foi inventando pela Dutra. Num percurso de 400km sempre ocorrem imprevistos e o excesso de álcool e algo mais na veia do povo fez com que alguns funkeiros chamassem o Juca pro chão, chão, chão, chão… (foi mal… é a influência do funk!). O pior foi a desculpa da galera dizendo que tinha problema com a serra do Rio. Como eu também fui vitimado pelo sono, acordei apenas na porta do baile funk no Complexo do Alemão. Com uma porrada do aventureiro Eduardo: “Acorda ai Edson já chegamos no pancadão!!!”

Leandro:

Como o Edsinho estava dormindo, eu lembro bem: o ônibus chegando na entrada da “favela” (como queria o repórter da Record) e toda aquela galera carioca olhando pra gente, que com cara de rato de laboratório, olhava pela janelinha daquele ambiente possivelmente hostil. Tinha que descer, né? Então desci. Estranho. Parecia um astronauta descendo em Marte em volta de um monte de marcianos. Mas foi só a primeira impressão. Quando vi o botequinho com algumas mesas de bilhar, aquela rua mais larga, na entrada do morrão… pensei: “Tô em casa!”. Como vivi minha infância muito próximo a perifa, não tinha nada de estranho. Ainda dava um frio na barriga. E olha que ainda nem tinha entrado no baile. Era por volta das 23h e o lugar onde rolava o pancadão já tava meio cheio. Como se fosse um galpão daqueles de escola de samba, chegamos meio envergonhados, mas só teríamos 30 minutos no lugar. Então tratamos de entrar no clima e dançar no meio do “corredor” dos funkeiros. Lá podia tirar a camisa, podia suar suvaco, podia ir de calçola, de bermuda, do que quiser. Em cima do palco, o DJ Marlboro dava o som. Na perifa, predominava o funk de perifa, claro. Pancadão. Edsinho, explica melhor aí as interjeições dos funks que rolavam.

Edsinho:

Parecia até um sonho!!! Como eu não tinha ouvido nada sobre os fatos que estavam acontecendo no morro, acordei e desci a todo vapor pra quadra onde rolava um pancadão animal, quando os seguranças recomendaram: “Qualquer problema é só dizer que estão com o Marlboro”. Depois desse recado foi entrar e pular a vontade. Fiquei impressionado com a parede cercada de caixas de som no volume máximo. Pra não perder tempo caí pro meio da galera e tentei acompanhar a batidas, mas meio sem jeito, pulava sem parar. Ainda bem que não demorou muito pra aparecer a tchuchucas que foram as nossas instrutoras nos passos de funk durante os poucos minutos de completo pancadão. A sensação após a saída da balada é que sem dúvida nenhuma tive os melhores 30 minutos vividos nos últimos anos, pude zoar ao lado de amigos e pessoas humildes sem se preocupar com nada, dei muita risada e fiquei extasiado pelo clima que senti na pele por esse poucos minutos. Mas como o tempo era pouco e ainda teríamos que passar em mais duas baladas, lá fomos nós. Ops… me espera que eu vou cair no banheiro rapidinho. Leandro aproveita que fui no banheiro e começa a descrever como iniciou a segunda baladinha da noite.

Leandro:

Passava da meia-noite e a gente chegava na segunda balada, chamada Raio de Sol. Era uma balada “classe média”, na região da Tijuca, estava absolutamente lotada. Um puta de um tumulto na pista como eu nunca vi. Desci pra pista e de lá não saí mais. Não dava pra se mexer. Só observava as dançarinas do DJ Marlboro e observava a galera dançando. Nesse baile, o som era uma mistura das músicas que tocaram na balada da perifa com uns funks mais melódicos. Tudo nacional, diga-se de passagem. Era bem parecida com as baladas de classe média daqui, onde predomina uma molecadinha mais jovem, na faixa dos 20 anos. Também dava pra ver uma placa: “Proibida a entrada com bermuda”. Um carioca gritou pro segurança: “Olha o cara de Berrrrrrrrmuda!!” E o Luiz: “Pô… que carioca cagüeta lazarento!!”. Mas num teve erro, porque a gente era truta do Marlboro, tá ligado?

Edsinho: 

Logo na entrada consegui ver o preço da entrada R$ 10 mulher e R$ 15 homem. Numa lotação absurda consegui subir para o camarote onde permaneci por quase os 50 minutos que ficamos na Tijuca. O som variava do funk com letras engraçadas aliadas aos funks de amor. No camarote pude sentir a vibração de algumas candidatas a modelo de qualquer coisa, vestida com mini blusa patrocinadas por um vereador da região. Elas agitavam os cuecas com belos sorrisos e com jeitinho de tchutchuca, não paravam de pedir pra eu tirar fotos. A maior dificuldade foi arrumar algo pra beber e com jeito consegui descolar uma breja que passava pelo corredor de mulheres. Depois de tal feito descobri uma atriz global, Luiza Valderato (?????), que fez uma pequena participação em Celebridade como amiguinha do falecido irmão do Inácio problemático. Ela me disse que estava fazendo laboratório pra a próxima novela da Globo América na qual será uma funkeira (????). Bom vamos em frente ainda nos faltava a balada mais esperada o Hard Rock Café. Vamos nessa Leandro!!!

Leandro:

Velho amigo Edson, a mais esperada só se foi pra você, porque pra mim, a mais esperada foi mesmo aquela da “favela”. Mas então chegamos nessa aí chamada Hard Rock Café, no topo do Shopping da Barra da Tijuca. Lugar super gringo. Dos playboys mesmo. A balada confirmava isso: o lugar decorado com guitarra de famosos nas paredes, roupas de celebridades, disco de ouro do Elvis, coisa fina. Já os freqüentadores, pelo contrário. Conheci o que chamavam pit boys, ou seja, caras marombados, freqüentadores assíduos de academia ou do Jiu Jitsu, com 200cm de pescoço, que mais pareciam ter saído daquele filme “O Grande Dragão Branco”, como inimigos do Van Damme. As meninas? Todas lindas. Sainhas, loirinhas, filhinhas de papai, cabelinhos penteadinhos, maquiagem, aquele jeitinho de “sou gostosinha sim… tente a sorte, mané!”. Eu nem tentei. Sério!! Só de ver meu amigo Edsinho sendo ignorado no melhor estilo “Homem Invisível”, já me deixou meio broxa. Mas tinha que se acostumar com o lugar. O DJ Marlboro ganha seu melhor cachê da noite nessa casa e, por isso, ficaríamos até às 6h da manhã. Como a testosterona estava num nível “Rickson Grace”, foi o único baile que saiu “pau”. Quando deu 4h30 mais ou menos já tava a fim de ir embora e voltar pra lá só depois que eu conseguisse levantar uns 300kg de supino.

Edsinho:

Num clima de ansiedade e curiosidade chegamos ao Hard Rock Café, o Leandro disse tudo, balada de pit boys playboys e patricinhas dos mais variados estilos. O próprio Leandro definiu em poucas o que era o Hard Rock: “Balada de gente com grana e bombada, atrás de azaração e confusão ao mesmo tempo”. Pra se ter uma idéia pra entrar no pico a galera (não a gente, claro!) desembolsou R$ 50. Mas vamos falar do funk a que fomos ver, que era mais no estilo charme, melódico. Sem pancadão nenhum. Com uma chegada triunfal o DJ Marlboro, ao lado do MC Marcinho, fez a noite do pessoal endinheirado de zona nobre do Rio de Janeiro, que a cada musica que começava, soltava o famoso gritinho: “Uhuuuuuu”. A melhor coisa da balada foi ter ganho a camiseta “É Big Mix, oh Mané!”. E Mané foi exatamente como me senti na última balada!!! Mas estamos aí e valeu a experiência de conhecer 3 lugares diferentes, numa noite só, na cidade maravilhosa.

Leandro:

Chega! Hora de voltar pra casa. 6h30 da matina. Um corredor de uns 50 seguranças descansavam, enquanto a gente saia pro estacionamento do shopping, onde estava o ônibus. Ao entrar no translado, Marlboro ainda agradeceu a todos, que aplaudiram, inclusive o repórter da Record (que ficou feliz da vida de ter ido na “favela”). Depois disso não teve mais conversa. Cada um caiu pra um lado e entramos em coma coletivo. Só acordamos em Aparecida, na parada da volta. Era feriado de 12 de Outubro, dia de Nossa Senhora de Aparecida e aproveitando a parada nessa cidade milagreira, resolvemos agradecer as nossas preces de não ter visto as caras da Record usarem o colete a provas de balas. De arrependimento mesmo um só: não ter comido o doce roxo que eu e o Luiz encontramos na lanchonete de Aparecida.

Dia 12 de Outubro… Diário de dois funkeiros!!!

Num gostou? Vem pagar um Spring Love!!!!

September 19, 2012
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